O sonho de concretizar a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e o fundamental Porto Sul em Ilhéus, ambos apresentados há mais de uma década como o grande vetor de desenvolvimento logístico da Bahia, está sendo ofuscado por uma realidade de atrasos crônicos, paralisias e incertezas contratuais que geram um ceticismo crescente entre a população e os players de mercado.

Longe de ser um projeto em pleno avanço, a obra, que já consumiu bilhões em recursos públicos e privados, é hoje um retrato da lentidão da infraestrutura brasileira, com o cronograma de entrega de 2026, estipulado pelo Novo PAC, se mostrando cada vez mais comprometido diante da atual situação dos canteiros de obras.

A situação mais alarmante recai sobre o Trecho 1 da FIOL, que liga Ilhéus a Caetité e foi concedido à Bahia Mineração (Bamin) em 2021.

As obras neste segmento crucial, que já atingiam cerca de 75% de execução física, foram suspensas desde o início de 2025 após o rompimento de contrato com a construtora, resultando em demissões em massa e na completa paralisação dos trabalhos.

A Bamin, controlada pela Eurasian Resources Group (ERG), enfrenta problemas de investimento e negociações de venda, deixando o futuro da concessão e, consequentemente, o do Porto Sul – que deveria ser o terminal de escoamento da mineração – em um completo “silêncio ensurdecedor”, conforme criticado por membros do Legislativo.

A falta de continuidade na obra de 537 km é um entrave gigantesco, pois a ferrovia não tem como operar sem a conclusão e o funcionamento de seu terminal de origem.

Não bastassem os problemas na concessão privada, os trechos sob responsabilidade da estatal Infra S.A. (antiga Valec), como o FIOL II (Caetité – Barreiras), também acumulam problemas graves.

Auditorias recentes do Tribunal de Contas da União (TCU) apontaram atrasos significativos e deficiências na gestão de novos contratos, como o do Lote 5F, onde apenas 3% das metas foram cumpridas após nove meses de execução.

O TCU constatou que a ausência de projetos executivos aprovados e a falta de serviços básicos como terraplenagem e drenagem configuram uma falha na fiscalização e no cumprimento do cronograma original.

A ausência de sanções contra empresas inadimplentes e a recorrência de problemas de planejamento reforçam a percepção de uma obra que avança em “marcha lenta” e sem a coordenação necessária para cumprir seus objetivos.

A demora, que já se arrasta por mais de 15 anos desde o início do projeto, é vista pela população e pelos agentes econômicos como uma perda de oportunidade de desenvolvimento.

O sonho de um novo corredor de exportação para commodities e minério, capaz de reduzir custos logísticos e gerar milhares de empregos, permanece travado por questões que vão desde a instabilidade financeira da concessionária até a ineficiência de gestão nos contratos públicos.

Diante deste cenário, o Governo Federal já estuda incluir a concessão da FIOL 1, atualmente com obras paralisadas, em um novo leilão que abranja todo o Corredor Leste-Oeste em 2026, uma manobra que, se por um lado busca destravar a ferrovia, por outro, prolonga ainda mais a agonia da população que aguarda a prometida transformação econômica da Bahia.

Fonte: Jornalista Mateus Oliver