Um dos cartões-postais mais celebrados da Bahia, o Castelo Garcia d’Ávila, situado na Praia do Forte, ressurge no centro das discussões neste Mês da Consciência Negra, expondo a urgência de recontextualizar monumentos que celebram figuras históricas ligadas à escravidão. Construído nos primeiros séculos da colonização, este que é o único castelo medieval das Américas foi, na verdade, a sede da Casa da Torre e o palco de crimes e crueldades praticadas por seu proprietário, Garcia d’Ávila Pereira de Aragão, o maior latifundiário da Bahia e do Brasil em sua época. Diante das evidências históricas de tortura e sadismo, pesquisadores e historiadores defendem que a narrativa turística seja reformulada, expondo a verdade ao público, e que até mesmo o nome do castelo seja alterado.

Documentos preservados na Torre do Tombo, em Lisboa, e analisados pelo doutor em Antropologia Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, revelam a extrema crueldade de Garcia d’Ávila, que praticava torturas que iam muito além dos castigos corporais usuais. Mott destaca um “verdadeiro fetiche na prática das torturas”, que envolviam componentes sexuais e eróticos, como pendurar pesos no saco escrotal de escravos e queimar as genitais de escravas. O pesquisador também ressalta a rebeldia religiosa do latifundiário, que era acusado de desprezar os rituais e dogmas da Igreja Católica, mostrando uma combinação de poder absoluto e desafio às autoridades da época, o que contribuía para sua impunidade.

O doutor em História e professor da UFBA, Alex Andrade Costa, contextualiza que essa violência não era isolada, mas sim parte do papel político da Casa da Torre, que funcionou por séculos como um verdadeiro “estado dentro do estado”. O Castelo, que era inicialmente uma fortaleza de proteção, serviu de centro logístico para a expansão colonial, a guerra contra populações indígenas, e a escravização em larga escala, dominando um vasto território que abrangia o litoral norte de Salvador e os sertões do São Francisco. O termo “Casa da Torre” era parte de uma estratégia simbólica dos Garcia d’Ávila para se auto denominarem uma nova aristocracia americana, legitimando seu poder sobre o território e sobre as vidas escravizadas.

Os registros de tortura analisados por Luiz Mott chocam pela descrição detalhada da barbárie. Os castigos incluíam espancamentos ritualizados, agressões em datas religiosas como a Sexta-Feira Santa, imobilizações dolorosas e violências contra as vítimas mais vulneráveis. Entre os episódios narrados, há o de Arquileu, um menino de quatro anos que foi açoitado com um chicote de cavalos até ter a pele arrancada, e o de Manoel, entre seis e oito anos, que teve cera quente pingada em seu ânus pelo proprietário, que ria da situação. Adolescentes, como Hipólito, de 16 anos, eram submetidos a suplícios como ter seus testículos amarrados a um peso de bronze, enquanto idosos, como Antônio Magro, de quase 80 anos, sofriam a introdução de pimentas malaguetas em seu ânus. O historiador Carlos Silva Jr. reforça que, apesar de chocante, a crueldade não era uma exceção, mas sim uma expressão de um sistema mais amplo, no qual proprietários de terras administravam a justiça em seus domínios com mínima intervenção da Coroa portuguesa. A impunidade de Garcia d’Ávila foi garantida pelo imenso poder político e econômico acumulado pela família.

Diante da memória oral ainda viva na região e dos documentos que detalham a violência, o debate sobre o futuro do Castelo ganha urgência. Os especialistas, embora defendam a preservação do patrimônio arquitetônico, exigem uma mudança na narrativa. Luiz Mott sugere que a Casa da Torre transcreva trechos das denúncias de tortura para que os visitantes tenham pleno conhecimento dos crimes de violação dos direitos humanos ali ocorridos. Alex Andrade Costa afirma que o turismo cultural deve superar o “conforto narrativo” e abraçar uma “pedagogia do incômodo responsável”, abandonando a romantização de figuras como Garcia d’Ávila para explicitar como tais edificações materializavam projetos de poder baseados na escravização. O debate, que ganha força com o movimento Black Lives Matter globalmente, visa substituir a homenagem ao escravista pela exposição da verdade histórica e da memória dos escravizados, como propõe o projeto Salvador Escravista na capital baiana.

Fonte: Jornalista Mateus Oliver