Fusão entre PSDB e Podemos enfrenta impasse na Bahia
A recente aprovação da fusão entre PSDB e Podemos, anunciada como estratégia de sobrevivência diante da cláusula de barreira, pode esbarrar em entraves mais profundos do que os tucanos imaginavam. Embora tenha recebido apoio maciço na convenção nacional do PSDB realizada em São Paulo — com 201 votos favoráveis e apenas 2 contrários —, a união ainda depende da chancela do Podemos, que sequer marcou sua convenção para deliberar sobre o tema. E, na Bahia, o casamento entre as duas siglas já começa em clima de crise.
No estado, a resistência é evidente nos bastidores. O PSDB integra o bloco da oposição ao governador Jerônimo Rodrigues (PT), enquanto o Podemos é aliado da gestão estadual, com cargos no governo, como o superintendente da Defesa Civil, Heber Santana. O temor de lideranças locais é que o novo partido acabe sem identidade clara, com um lado atrelado ao petismo e o outro vinculado ao grupo do prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), e ao ex-prefeito ACM Neto.
A indefinição sobre o comando da legenda na Bahia intensifica a tensão. Tucanos defendem que o novo partido seja presidido no estado pelo deputado federal Adolfo Viana. Já integrantes do Podemos sustentam que Heber Santana deve permanecer à frente. O impasse reflete a disputa por espaço em um cenário onde nenhuma das duas legendas, isoladamente, tem protagonismo suficiente para ditar os rumos da fusão.
Nos corredores políticos, há quem aposte que o Podemos pode desistir da união ainda este mês. As divergências internas, o desgaste da marca tucana nos últimos anos e a ausência de um projeto claro de poder conjunto pesam contra a aliança. O PSDB, que já foi protagonista do cenário nacional, perdeu força com o avanço do bolsonarismo e viu até seus governadores mais expressivos, como Eduardo Leite e Raquel Lyra, migrarem para o PSD.
O principal motor da fusão segue sendo a cláusula de desempenho, instituída pela emenda constitucional de 2017. A regra exige que os partidos atinjam metas mínimas de votação para manter acesso ao fundo partidário e ao horário eleitoral gratuito. Com a proximidade das eleições de 2026, pelo menos 11 siglas correm risco de ficar abaixo da linha de corte.
A proposta da nova legenda é formar uma alternativa de centro-direita, com cerca de 30 deputados federais, sete senadores e 400 prefeitos após as eleições municipais de 2024. Mas, sem alinhamento interno e unidade entre seus quadros, a fusão pode terminar como mais um capítulo na fragmentação do sistema partidário brasileiro — justamente o problema que a cláusula de barreira tenta combater.












