Mundo produz comida suficiente, mas alimentação saudável continua distante dos mais pobres
Uma das maiores contradições do mundo moderno está no fato de a humanidade produzir alimentos em quantidade suficiente para atender toda a população, enquanto milhões de pessoas continuam enfrentando a fome, a desnutrição e a dificuldade de manter uma alimentação saudável, situação novamente exposta por um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, que busca alertar governos e sociedades sobre a urgência de políticas capazes de garantir não apenas comida na mesa, mas também qualidade nutricional.
O problema já não pode ser analisado somente pela quantidade de calorias disponíveis, porque muitas famílias até conseguem consumir produtos suficientes para afastar temporariamente a sensação de fome, mas permanecem sem acesso a proteínas de qualidade, frutas, verduras, legumes e outros alimentos essenciais ao funcionamento do organismo, uma vez que o custo de um cardápio equilibrado pesa principalmente sobre os trabalhadores de baixa renda e obriga milhões de pessoas a escolher produtos mais baratos, processados e com menor valor nutricional.
A situação se mostra ainda mais grave na América Latina e no Caribe, regiões onde o custo da alimentação saudável permanece entre os maiores do planeta, realidade que aumenta a sensação de injustiça quando se considera que esses territórios contribuíram ao longo de inúmeras gerações para a produção e a diversidade alimentar mundial, mas atualmente não conseguem assegurar que parte significativa da própria população tenha acesso aos alimentos originados ou cultivados em seu território.
O milho, o cacau e o abacate representam contribuições históricas de povos maias e astecas, enquanto a batata está ligada às comunidades andinas, a mandioca e o caju fazem parte da herança dos povos indígenas brasileiros e a produção de uvas possui forte presença em países como o Chile, demonstrando que a América Latina ajudou a formar a alimentação consumida em diversas partes do mundo, embora continue convivendo com famílias que não conseguem adquirir regularmente esses mesmos produtos.
Essa contradição se torna ainda mais dolorosa em territórios de forte vocação agrícola, onde milhões de toneladas de alimentos são produzidas e exportadas todos os anos, mas as comunidades locais permanecem sem acesso contínuo à diversidade e à qualidade nutricional necessárias, revelando que o aumento da produção não significa automaticamente redução da fome ou melhoria da alimentação das populações mais vulneráveis.
A lógica econômica privilegia a produção de commodities, os grandes contratos internacionais e as extensas cadeias de exportação, enquanto os mercados locais enfrentam dificuldades relacionadas ao transporte, armazenamento, distribuição, intermediação e formação de preços, fazendo com que alimentos produzidos a poucos quilômetros das cidades cheguem caros às feiras, aos supermercados e às mesas das famílias.
O cenário evidencia a distância entre um modelo voltado principalmente ao crescimento financeiro dos grandes investidores do agronegócio e outro que deveria considerar a alimentação como direito essencial, garantindo que parte da produção seja direcionada ao abastecimento interno, aos programas sociais, às escolas públicas, aos restaurantes populares e às famílias em situação de vulnerabilidade.
Não se trata de combater a exportação ou impedir o desenvolvimento do setor agrícola, mas de criar mecanismos capazes de equilibrar os interesses econômicos com as necessidades humanas, assegurando que o país ou a região que produz alimentos em larga escala também consiga oferecer comida saudável, diversificada e acessível à própria população.
Entre as medidas possíveis estão o fortalecimento da agricultura familiar, a ampliação das compras públicas, o incentivo às feiras livres, a redução das perdas durante o transporte, a melhoria da infraestrutura de armazenamento e a criação de políticas que garantam quantidades mínimas de alimentos saudáveis destinadas ao mercado interno.
Também é necessário combater a concentração da distribuição, reduzir a distância entre produtores e consumidores e ampliar programas de transferência de renda e segurança alimentar, porque não basta produzir milhões de toneladas quando as famílias não possuem dinheiro suficiente para adquirir os produtos disponíveis.
A fome e a desnutrição não podem ser tratadas como problemas inevitáveis ou deixados para soluções futuras, pois as carências nutricionais provocam consequências imediatas na saúde, no aprendizado das crianças, na produtividade dos trabalhadores e na qualidade de vida das famílias.
Enquanto a alimentação continuar sendo determinada exclusivamente pela capacidade de pagamento, o mundo permanecerá convivendo com o paradoxo de celeiros cheios, exportações recordes e mesas vazias, demonstrando que o verdadeiro desafio não está apenas em produzir mais, mas em garantir que cada pessoa tenha acesso digno ao alimento de que necessita.
Fonte: jornalista Mateus Oliver











