A tecnologia deveria servir para aproximar pessoas, facilitar o acesso à informação e ampliar o conhecimento, entretanto, quando passa a ser utilizada para enganar o eleitor, fabricar declarações e distorcer acontecimentos, ela deixa de ser apenas uma ferramenta e se transforma em uma ameaça direta à democracia.

Com o avanço da inteligência artificial, tornou-se possível criar vídeos extremamente realistas, reproduzir a voz de qualquer pessoa e produzir imagens de fatos que nunca aconteceram, conteúdos capazes de colocar candidatos em situações falsas, inventar discursos e provocar reações antes mesmo que a verdade seja esclarecida.

O problema se torna ainda mais grave durante o período eleitoral, quando uma mentira divulgada no momento certo pode atingir milhões de pessoas, destruir reputações, influenciar votos e alterar o rumo de uma disputa, mesmo que o conteúdo seja desmentido posteriormente, os danos podem ser irreversíveis.

A democracia depende da liberdade de escolha, mas não existe escolha verdadeiramente livre quando o eleitor toma uma decisão com base em informações falsas, vídeos manipulados ou áudios produzidos artificialmente para beneficiar um candidato ou prejudicar outro.

Quando a tecnologia engana o eleitor, ela interfere diretamente na formação da vontade popular, transforma a mentira em estratégia política e permite que grupos interessados controlem emoções, espalhem medo e induzam decisões sem apresentar propostas ou argumentos verdadeiros.

O risco aumenta porque muitos conteúdos produzidos por inteligência artificial já são difíceis de identificar, até mesmo pessoas acostumadas com redes sociais podem acreditar em uma montagem bem elaborada, principalmente quando o material reforça uma opinião política que elas já possuem.

Esse cenário exige responsabilidade dos candidatos, partidos, plataformas digitais, autoridades eleitorais e também de cada cidadão, não basta combater apenas quem cria a mentira, é necessário conscientizar quem recebe, acredita e compartilha sem verificar a origem da informação.

Antes de divulgar um vídeo, áudio ou imagem envolvendo algum candidato, o eleitor precisa observar quem publicou, procurar o conteúdo em veículos confiáveis e desconfiar de materiais sensacionalistas ou divulgados sem qualquer contexto, o compartilhamento impulsivo pode transformar uma falsidade isolada em uma grande campanha de desinformação.

Também é necessário que todo conteúdo produzido ou alterado por inteligência artificial seja claramente identificado, o eleitor tem o direito de saber quando está diante de uma simulação, uma montagem ou uma reprodução artificial de voz e imagem.

A tecnologia não pode ser usada como desculpa para destruir o debate público, fugir da apresentação de propostas ou manipular a população, uma eleição deve ser decidida pela capacidade dos candidatos, pelo histórico de cada um e pelos compromissos assumidos com a sociedade.

Permitir que vídeos fabricados, vozes clonadas e imagens falsas influenciem o voto significa aceitar que a mentira tenha mais força do que a verdade, quando isso acontece, não é apenas um candidato que pode ser prejudicado, é a própria democracia que corre perigo.

Por Mateus Oliver, Jornalista, Reg MTE 7.056/BR